
Durante muito tempo, falar sobre saúde mental foi considerado um tabu. Buscar acompanhamento psicológico era visto como sinal de fraqueza ou “coisa de gente doida”. Essa mentalidade, no entanto, está cada vez mais distante da realidade contemporânea — e precisa ser superada de vez.
A verdade é que nunca estivemos tão adoecidos emocional e psicologicamente. A rotina acelerada, a pressão por resultados, o isolamento social e a falta de conexões humanas genuínas têm contribuído para o aumento de quadros de depressão, transtornos de ansiedade, estresse, burnout e outros transtornos que comprometem a qualidade de vida e o desempenho profissional.
Uma pesquisa da Creditas Benefícios/Opinion Box (2022) revelou que 86% dos trabalhadores brasileiros já passaram por algum problema de saúde mental associado ao trabalho. No cenário global, o relatório 2025 State of Workforce Mental Health, da Lyra Health, mostra que fatores como estresse e burnout relacionados ao trabalho estão entre os principais impactos negativos à saúde mental — e que a sobrecarga de tarefas figura como uma das causas mais apontadas.
No Brasil, estudos com profissionais de saúde apontam altas taxas de sofrimento psíquico. Uma pesquisa da USP durante a pandemia mostrou que 43% relataram ansiedade e 40% sintomas de depressão (Jornal da USP, 2020). Revisões sistemáticas também indicam prevalências elevadas de sofrimento mental em serviços de urgência e emergência (Scielo Brasil, 2021).
De forma mais ampla, cerca de 20% da população brasileira apresenta algum transtorno mental comum, segundo estudos epidemiológicos (Scielo Brasil, 2011; FMUSP, 2022). Globalmente, a depressão afeta mais de 300 milhões de pessoas, e, junto com os transtornos de ansiedade, é responsável por 12 bilhões de dias de trabalho perdidos ao ano, com custo estimado em US$ 1 trilhão, segundo a Organização Mundial da Saúde (2020).
A psicologia está em tudo — mas ainda há resistência
Curiosamente, a psicologia é amplamente aplicada e reconhecida em diversas áreas: publicidade, esportes, educação, gestão de pessoas, tecnologia, experiências do usuário (UX), economia comportamental e até no design de produtos.
Porém, quando o assunto é o cuidado direto com a saúde mental ou o desenvolvimento pessoal, a resistência ainda é grande. As pessoas hesitam em buscar acompanhamento psicológico para melhorar a qualidade de suas emoções e lidar com comportamentos disfuncionais, muitas vezes por medo do julgamento social ou por acreditarem que fragilidade é sinônimo de incompetência profissional.
Muitos ainda tratam o tema como algo secundário, quando na verdade ele é essencial — tanto para o bem-estar individual quanto para a sustentabilidade emocional e produtiva das organizações.
O modelo atual já mostrou que não funciona
Como é possível perceber a partir do apresentado sobre a saúde mental no trabalho na atualidade, o modelo tradicional, centrado apenas em resultados e produtividade a qualquer custo, já demonstrou suas falhas. O aumento de afastamentos por transtornos psicológicos é apenas um dos muitos sinais de que algo precisa mudar.
Não por acaso, surgem cada vez mais movimentos e iniciativas que valorizam o equilíbrio emocional e a saúde mental no ambiente de trabalho. Entre eles:
- Competências socioemocionais nas escolas, preparando futuras gerações para lidar com emoções e relações — de acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), as competências socioemocionais estão entre as dez competências gerais da educação básica, devendo ser integradas ao currículo para desenvolver empatia, colaboração, autogestão e responsabilidade.
- Valorização da inteligência emocional e das soft skills, como destaca o Fórum Econômico Mundial (Future of Jobs Report 2025), que aponta competências como empatia, adaptabilidade, pensamento crítico e resolução de problemas complexos entre as mais demandadas pelos empregadores até 2030.
- Gestão de riscos psicossociais, incorporando o bem-estar mental às estratégias de segurança e saúde ocupacional — segundo a nova NR-1, que entra em vigor em 2025, empresas brasileiras deverão identificar, avaliar e gerenciar riscos psicossociais, como estresse, sobrecarga e assédio, nos Programas de Gerenciamento de Riscos (PGR).
Esses são indícios claros de que a transformação já está em curso — e que resistir a ela é perder relevância.
Um movimento coletivo: empresas, colaboradores e profissionais da área comportamental
Para que a mudança seja efetiva, é necessário um esforço conjunto. Empresários, gestores, colaboradores e profissionais da área comportamental precisam atuar lado a lado na construção de cultaras organizacionais emocionalmente mais saudáveis.
Investir na saúde mental dos colaboradores e em uma cultura organizacional emocionalmente mais inteligente não é custo, é estratégia. Colaboradores mais equilibrados são naturalmente mais produtivos, criativos e engajados.
Algumas empresas brasileiras já estão dando passos concretos nessa direção:
- A epharma desenvolveu o programa Conexão Saúde, oferecendo atendimento psicológico, conteúdos educacionais, podcasts e diário emocional a colaboradores e familiares.
- A BAMIN criou o Programa Saúde de Ferro, com assistência psicológica online, ações de conscientização e apoio aos dependentes.
- A Embracon lançou o canal Conte Comigo, com suporte psicoemocional e financeiro, sendo reconhecida pelo Great Place to Work como destaque em saúde emocional.
- A Printi realiza palestras, rodas de conversa e oferece acesso a orientações psicológicas, jurídicas e financeiras, reforçando o compromisso com o bem-estar contínuo de seus colaboradores.
Existem muitas outras, como é o caso da Natura, SAP, Banco Itaú, AMBEV, FedEx, que servem como exemplos de que é possível — e altamente vantajoso — alinhar performance e humanidade.
A mudança é inevitável — e todos ganham com ela
O primeiro passo está na mudança de mentalidade. É preciso compreender que essa transformação é inevitável e irreversível. Quanto antes líderes e empresários se capacitarem para uma cultura organização saudável e voltada a prevenção dos riscos psicossociais, melhor será o processo de adaptação — e mais sustentáveis serão os resultados, tanto humanos quanto financeiros.
No fim das contas, cuidar da mente e das emoções, é cuidar do futuro. E quem entender isso agora estará um passo à frente no novo mercado de trabalho que se configura.